domingo, 11 de novembro de 2012

Pregadores Mirins. Chamada ou influência?


Pregadores Mirins. Chamada ou influência?




É benéfico para uma criança? O que a psicologia diz sobre o assunto?

O que pensa o ministério da igreja? É teologicamente correto?

O que antes era motivo de chacota, hoje ser evangélico parece ser moda e quando se trata de criança “prodígio”, vira notícia na mídia. Nunca houve tanta evidência de pregadores mirins como nos últimos anos nos veículos de comunicação. A televisão tem inserido em suas programações, o que há alguns anos vem ocorrendo dentro das igrejas. Meninos e meninas que pregam em púlpitos, agora tomam boa parte de talkshows promovendo o evangelho e dizendo aos telespectadores que receberam uma chamada divina para tal missão. Mas isto é benéfico para uma criança? O que diz a psicologia? O que pensa o ministério da igreja? Existe base teológica para isso?  

A revista Época publicou na edição 644 (20 de setembro de 2010) uma matéria intitulada “Uma menina superpoderosa” que relata a história de Alani Santos, uma garota de apenas seis anos de idade, que vive em Alcântara, Rio de Janeiro. Filha do pastor Adauto Santos, da igreja Pentecostal dos Milagres, ela é conhecida como a missionarinha Alani. Ela ainda não prega, mas após os sermões de seu pai, ela entra em cena fazendo orações por pessoas enfermas, o que resulta em algumas pessoas curadas.

Associando o nome da igreja ao papel que a pequena Alani faz depois das pregações de seu pai, será que foi uma imposição ou ela, com apenas seis anos de idade, tomou esta iniciativa? A revista afirma que nos cultos, o pastor Adauto repete várias vezes que a própria pessoa é culpada por sua doença, por não exercer sua fé. Enquanto isso, a pequena Alani continua orando pelos enfermos e recebe vários convites para ministrar orações por curas divinas em outras igrejas.

No programa SuperPop (REDETV), apresentado por Luciana Gimenez, é onde os pequenos notáveis encontram mais espaço. A chamada pastorinha Ana Carolina, da cidade do Rio de Janeiro, hoje com 16 anos de idade, já freqüentava o talkshow desde pequena. Alega que com quatro anos de idade começou seu ministério e que já pregou no maior evento missionário do mundo, GMUH - Gideões Missionários da Última Hora. Ela já esteve no Raul Gil, Gugu Liberato, Leda Nagle (Rede Brasil), Wagner Montes (CNT) e na Márcia Goldsmith (Band), mas sua entrevista com a apresentadora Gimenez no final do ano passado durou cerca de dez minutos, o que não é pouco num programa de televisão. Com um tom de voz rouca, típico de quem prega com freqüência, ela mostra habilidade na sua entrevista e aproveita para anunciar que Deus pode fazer milagres.

Para a psicóloga Carla Oliveira Mello Mota, da OBPC (O Brasil Para Cristo - Mandaqui), muitas vezes a criança tem vontade de imitar um líder influente. Ela se identifica, imagina-se pregando, em evidência, ensinando e admoestando o público, demonstrando um sentimento de superioridade em relação os demais.

Quando perguntei se esses pregadores mirins tomam decisão própria ou são influenciadas, Carla disse que depende muito da faixa etária deste pregador, como foi educado e se tem um bom referencial cristão para seguir e imitar. Porém sabe-se que o adulto influencia muito para tomada de decisões e determinam a realização desta função para a satisfação própria e não da criança - o que é prejudicial - pois cada um deve ter a capacidade e a liberdade para escolher o que deseja fazer.

Ela ainda alerta para as conseqüências de uma postura precoce: “Quando pais, familiares, líderes espirituais desrespeitam as vontades infantis e depositam suas expectativas nos pregadores mirins, prejudicam o desenvolvimento emocional destes. Por respeito e obediência aos pais ou líderes espirituais, a criança desempenha a função contrariada, deixa de vivenciar situações cotidianas que para sua idade seriam naturais e normais para satisfação dos outros que admiram. Normalmente, quando os pregadores mirins se tornam independentes, muitas vezes se revoltam com todos e até se desviam do evangelho”.

O pastor, teólogo e escritor Ciro Sanches, que intitulou em seu blog “Pregadores Mirins ou miniaturas de animadores de auditório?”, diz que os chamados pregadores mirins são miniaturas dos pregadores malabaristas. Afirma que empregam bordões como “Ei, psiu, diga para o seu irmão: Sonhador não morre!”, e ainda “Crente que não faz barulho esta com defeito de fabricação”, além de terem trejeitos, berrarem ao microfone, correrem de um lado para o outro e darem golpes no ar. “Ora, Deus usa a quem quer e como quer, inclusive meninos, adolescentes e jovens como Samuel, Davi, Josias, o menino Jesus, Timóteo, etc. Mas não podemos aceitar com naturalidade a exploração infantil, o mecanicismo e o artificialismo. Além disso, não devemos tolerar, nos infantes, a soberba, o comportamento de celebridade e a imitação de um modelo que não está de acordo com a pregação cristocêntrica, ainda que usemos como justificativa o fato de as crianças serem ingênuas e, até certo ponto, inocentes”, afirma Ciro Sanches.  

Já o colunista e apologista do Jornal Nosso Setor Célio Roberto diz que Deus usa quem ele quer e como quer, mais sempre respeitando os limites de cada um. Deus pode usar uma criança, mas nos limites de uma criança. É visto na Bíblia o exemplo de Jesus no meio dos doutores com apenas 12 anos de Idade e que Ele foi o garoto mais importante e especial para Deus. Quando Jesus foi encontrado no meio dos doutores, não estava ensinando e dando lição de moral ou de teologia nos doutores da Lei, como afirmam alguns. Ele estava ouvindo-os e interrogando-os. Diante das respostas para um garoto de 12 anos, os mestres ficaram maravilhados. Não vemos em Jesus um pregador Mirim. Nem em João Batista ou Paulo, a quem o Senhor escolheu ainda no ventre. Deus criou o ser humano, e conhecendo a sua estrutura, respeita os limites.

Célio afirma que na parábola dos talentos, está escrito que o Senhor usa cada um conforme a capacidade que tem. Por isso, ele não usa como quer, mas respeitando os limites de cada ser humano. Outro fator interessante, é que tudo tem um tempo determinado por Deus, e ele sabe esperar. “Não sou contra os pregadores mirins, só acho que eles não têm o conhecimento e a estrutura para fazer o serviço de uma pessoa adulta. E Deus sabe disso e respeita os limites de todos nós. Pregar o evangelho, especialmente para multidões e para pessoas não crentes, exige muito preparo de um pregador, coisas que uma criança dificilmente tem. Precisamos tomar cuidado com isso”, conclui.

Para o pastor José Wellington Costa Júnior (vice-presidente do ministério do Belém) os pregadores mirins precisam desfrutar da infância, adolescência e mocidade, merecendo uma atenção especial, pois desde criança se tornam referência. Por pregarem a Palavra precisam ser acompanhados de perto pelos pais e seus pastores e precisam de apoio, reconhecimento, incentivo do ministério e acima de tudo de oração para que o Senhor os use sempre.

“É importante que participem da atividade da igreja, de acordo com a faixa etária, principalmente da Escola Bíblica Dominical. O pregador mirim tem de saber desde cedo que para pregar precisa ouvir”, afirmou. Pastor Wellington Júnior finaliza dizendo que acima de tudo, algo precisa ficar gravado nos corações dos pequenos preletores: “Quem tem mensagem para dar é o Senhor, portanto a glória será sempre pra Jesus”.  

A cada dia parece aumentar a quantidade de pregadores mirins, haja vista a quantidade de sites que divulgam esses pequenos notáveis. Para mim, o importante é que o evangelho seja pregado, mas que criança pregue como criança e que adulto nunca pregue como “menino”.

 Alex Silva

9 comentários:

Adriana MAcuje disse...

A Palavra de Deus nos orienta a ensinarmos os nossos filhos nos caminhos do Senhor, pois quando forem velhos não se desviarão dele.
Nem no Velho, nem no Novo Testamento encontramos crianças ensinando aos adultos. Toda orientação bíblica é sempre os pais, os mais velhos, os anciãos ensinarem os mais novos.

Alexandre disse...

Usar metódicamente crianças para pregar, para orar em público, curar e profetizar é despropósito sem fim. Dentre os vários males que causa, um deles é de tirar da criança a benção de brincar, ser criança e viver sua infância sem compromissos de gente grande. Colocar um peso antes da hora sobre uma personalidade que não está madura para entender plenamente o que está fazendo.

Pedro disse...

pais e líderes usam crianças nesse sentido, muitas vezes o fazem para atrair adeptos com a finalidade de ganhar dinheiro, pela venda de CDs e DVDs. Lamentavelmente vivemos esse tempo

MAteus disse...

Infelizmente existem pais que se comportam como verdadeiros mercenários, usando seus filhos como meio de vida para arrecadar dinheiro. Alguns para compensar suas frustrações, outros para alimentar seu fanatismo religioso;
com isto, as crianças tem sua infância roubada e uma má formação psicológica.

Izabel disse...

é impossível que uma criança compreenda a profundidade do que está lendo nas páginas da Escritura a ponto de transmitir com o peso da pregação.

Graça disse...

Em geral a carreira dos pregadores mirins se encerra com a infância. Poucos se tornam pastores quando adultos. É claro que a oratória desenvolvida nos cultos pode ser útil ao longo da vida. Mas de modo geral, o púlpito se transforma em mero registro do passado ou até mesmo em objeto de mágoa

Jornalista Alex Silva disse...

Obrigado por seus comentários! :)

Quezia disse...

Quezia...
Na atualidade ainda é possível ver essa exploração sendo efetuada através de nossas crianças. Crianças podem e são bençãos de Deus para a vida das pessoas. Porém, o que não deve ocorrer é o excesso, pois as crianças precisam viver de acordo com sua faixa etária, ou seja, sem pular certas etapas de suas vidas. Por isso, acredito que Deus usa as crianças, assim como usou aquele menino com 5 pães e 2 peixinhos, todavia, é preciso ter cuidado com essa nova tendência que ten invadido as nossas Igrjas.

ester vieira disse...

Sou a favor de que filhos de pais evangélicos devam ser criados na Casa do Senhor, lógico que com moderação.
Criança, independente de religião tem que ter uma infância normal.
A religião deve ser ensinada à criança e não imposta, como a maioria dos pais fazem (sejam estes evangélicos ou não).
Pais não conseguem formar personalidade de um filho, pois este já nasce com personalidade própria.
Acho um absurdo certos adultos "ignorantes" usarem a imagem de um anjo inocente para pregar a palavra de Deus que é algo tão precioso.
Esta criança com certeza não tem noção do que está transmitindo, ela apenas tenta imitar alguém muito próximo do seu convívio diário.

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